Saúde geral
Periodontite e saúde geral: a relação com diabetes e coração
A gengiva não está isolada do resto do corpo. Consensos internacionais apontam associações entre periodontite, diabetes e doenças cardiovasculares, e isso muda a forma de cuidar.
Durante muito tempo, a gengiva foi vista como um assunto restrito à boca. Hoje, porém, a ciência olha para ela de um jeito mais amplo. Grandes encontros de especialistas, reunindo periodontistas, endocrinologistas e cardiologistas, se dedicaram a entender como a periodontite se relaciona com outras condições de saúde.
Neste texto, explicamos com calma o que esses consensos dizem sobre diabetes e doenças do coração, o que já está bem estabelecido, o que ainda está em estudo e por que a conversa entre dentista e médico faz tanta diferença.
O que é periodontite, em poucas palavras
A periodontite é uma inflamação crônica dos tecidos que sustentam os dentes: a gengiva, o ligamento que prende o dente ao osso e o próprio osso. Ela começa com o acúmulo de placa bacteriana e, quando não é tratada, pode levar à formação de bolsas periodontais, que são espaços que se formam entre o dente e a gengiva, e à perda gradual de suporte.
Muitas vezes ela evolui sem dor. Os sinais mais comuns são sangramento, gengiva inchada, mau hálito persistente, dentes que parecem mais longos ou que começam a se movimentar. Por ser uma inflamação de longa duração, os pesquisadores passaram a investigar se ela tem reflexos fora da boca.
Periodontite e diabetes: uma via de mão dupla
Em 2017, a Federação Europeia de Periodontia (EFP) e a Federação Internacional de Diabetes (IDF) publicaram um consenso conjunto sobre o tema. A principal conclusão é que diabetes e periodontite têm uma relação bidirecional, ou seja, uma condição pode influenciar a outra.
- Pessoas com diabetes, principalmente quando a glicose está mal controlada, têm maior risco de desenvolver periodontite e de ter formas mais avançadas da doença.
- Entre pessoas com diabetes, aquelas que também têm periodontite tendem a apresentar valores mais altos de hemoglobina glicada, o exame que reflete a média da glicose nos últimos meses.
- A periodontite também foi associada a um risco maior de desenvolver diabetes tipo 2.
Os pesquisadores também descreveram caminhos biológicos que ajudam a explicar essa ligação. A inflamação da gengiva libera substâncias inflamatórias que podem interferir na forma como o corpo responde à insulina. Ao mesmo tempo, a glicose elevada deixa os tecidos da gengiva mais vulneráveis à inflamação e dificulta a cicatrização.
O mesmo consenso concluiu que o tratamento periodontal é seguro e eficaz em pessoas com diabetes. Os estudos mostraram uma redução média da hemoglobina glicada entre 0,27 e 0,48 ponto percentual três meses após o tratamento. Uma revisão Cochrane de 2022, que reuniu 35 estudos, encontrou resultado semelhante, com evidência de certeza moderada.
Cuidar da gengiva não substitui o tratamento do diabetes. Ele soma ao acompanhamento médico, à alimentação, à atividade física e aos medicamentos prescritos, e nunca os dispensa.
Periodontite e coração: associação, não causa comprovada
Em 2019, a EFP e a Federação Mundial do Coração (World Heart Federation) reuniram especialistas para revisar as evidências sobre periodontite e doenças cardiovasculares. O consenso, publicado em 2020, encontrou associações consistentes entre a periodontite e doenças como as das artérias do coração e o acidente vascular cerebral.
Existem explicações biológicas plausíveis para essa relação. Bactérias da gengiva inflamada podem chegar à corrente sanguínea em pequenas quantidades, e a inflamação crônica pode contribuir para um estado inflamatório no organismo como um todo. Ainda assim, o consenso trata a periodontite como um possível fator de risco, e não afirma que ela cause doença cardíaca.
Os estudos de tratamento mostram que cuidar da periodontite pode reduzir alguns marcadores de inflamação no sangue e melhorar a função dos vasos em curto prazo. Por outro lado, o consenso deixa claro que ainda não há evidência suficiente para dizer que o tratamento da gengiva previne infarto ou derrame. É uma área em estudo, e a informação honesta é essa.
Quando o dentista conversa com o médico
Os dois consensos recomendam que dentistas e médicos trabalhem juntos. Para quem tem diabetes, isso significa que o médico pode orientar a avaliação da gengiva e que o dentista pode reforçar a importância do controle glicêmico. Para quem tem doença cardiovascular, a troca de informações é ainda mais importante antes de alguns procedimentos.
Um exemplo prático são os medicamentos que afinam o sangue. O consenso de 2020 orienta que antiagregantes e anticoagulantes não sejam suspensos por conta própria, nem pelo paciente nem pelo dentista, e que qualquer ajuste seja decidido junto com o médico responsável. Por isso, é essencial contar ao dentista todos os medicamentos em uso.
Esse diálogo faz parte da formação da Dra. Rafaela Lantyer. Além de especialista e mestre em Periodontia, ela fez residência em Odontologia Hospitalar com ênfase em cardiologia e pneumologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Essa experiência ajuda a planejar o cuidado periodontal considerando a saúde geral de cada paciente.
O que você pode fazer no dia a dia
- Escovar os dentes duas vezes ao dia e limpar entre eles diariamente, com fio dental ou escova interdental.
- Observar sinais como sangramento, gengiva inchada, mau hálito persistente ou dentes com mobilidade.
- Informar ao dentista se você tem diabetes, problemas cardíacos ou usa medicamentos contínuos.
- Manter as consultas médicas e os exames em dia.
- Fazer acompanhamento periodontal regular, mesmo sem sintomas.
Quando a periodontite é diagnosticada, o tratamento costuma começar pela orientação de higiene e pela raspagem periodontal, que remove a placa e o tártaro de dentro das bolsas. Para entender as etapas com mais detalhes, vale ler o artigo Periodontite tem tratamento?.
Quando procurar avaliação
Se você tem diabetes ou alguma condição cardiovascular, uma avaliação periodontal pode fazer parte do seu cuidado, mesmo que a gengiva não incomode. O mesmo vale para quem percebe sangramento frequente, mau hálito que não passa ou dentes que mudaram de posição.
Em São José dos Campos, a Dra. Rafaela avalia a gengiva, explica o que foi encontrado e, quando necessário, conversa com o seu médico para alinhar o cuidado. O diagnóstico e a indicação de tratamento sempre dependem da avaliação presencial.

Cirurgiã-dentista, especialista e mestre em Periodontia (USP | UNESP). Atende em São José dos Campos.
Referências
- Sanz M, Ceriello A, Buysschaert M, et al. Scientific evidence on the links between periodontal diseases and diabetes: Consensus report and guidelines of the joint workshop on periodontal diseases and diabetes by the International Diabetes Federation and the European Federation of Periodontology. J Clin Periodontol. 2018;45(2):138-149. doi.org/10.1111/jcpe.12808
- Sanz M, Marco del Castillo A, Jepsen S, et al. Periodontitis and cardiovascular diseases: Consensus report. J Clin Periodontol. 2020;47(3):268-288. doi.org/10.1111/jcpe.13189
- Simpson TC, Clarkson JE, Worthington HV, et al. Treatment of periodontitis for glycaemic control in people with diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2022;4(4):CD004714. doi.org/10.1002/14651858.CD004714.pub4
- Sanz M, Herrera D, Kebschull M, et al. Treatment of stage I-III periodontitis: The EFP S3 level clinical practice guideline. J Clin Periodontol. 2020;47(Suppl 22):4-60. doi.org/10.1111/jcpe.13290
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta: o diagnóstico e a indicação de qualquer tratamento dependem de avaliação presencial.
