Cirurgia plástica gengival
Frenectomia labial e lingual: quando é indicada e como é feita
O freio é uma estrutura normal da boca. Saiba em quais situações ele pode atrapalhar e por que a decisão pela cirurgia depende sempre de uma avaliação individual.
Quem já observou a boca com atenção no espelho talvez tenha notado uma pequena prega de tecido ligando o lábio à gengiva, ou a parte de baixo da língua ao assoalho da boca. Essas pregas se chamam freios, ou frênulos, e fazem parte da anatomia normal de todas as pessoas.
Na maioria dos casos, o freio não causa problema algum. Em algumas situações, porém, ele fica inserido muito perto da gengiva ou é curto demais, e então pode ser considerada a frenectomia, uma pequena cirurgia que remove ou reposiciona essa prega. A seguir, explicamos quando ela costuma ser lembrada, como é feita e por que a indicação depende sempre de uma avaliação presencial.
O que são os freios labial e lingual
O freio labial superior fica no centro, entre o lábio de cima e a gengiva dos dentes da frente. Existe também um freio labial inferior, na mesma posição do lábio de baixo. Já o freio lingual liga a face inferior da língua ao assoalho da boca e participa dos movimentos da língua.
Esses freios variam bastante de pessoa para pessoa em espessura, comprimento e ponto de inserção. Um freio mais grosso ou mais baixo não significa, por si só, que haja algo errado. O que importa é se ele interfere na saúde da gengiva, na higiene, na função ou no conforto do dia a dia.
Quando a frenectomia pode ser indicada
A indicação não é feita apenas pela aparência. Ela surge quando o freio está ligado a um problema concreto, que precisa ser confirmado no exame clínico. Entre as situações que costumam motivar a avaliação estão:
- Freio que puxa a margem da gengiva: ao movimentar o lábio, o freio traciona a gengiva, o que pode dificultar a limpeza da região e, em alguns casos, aparecer junto de uma retração gengival.
- Dificuldade de higiene: um freio muito próximo dos dentes pode atrapalhar a escovação e favorecer o acúmulo de placa bacteriana naquele ponto.
- Espaço entre os dentes da frente (diastema): em alguns casos, um freio labial superior volumoso participa da manutenção desse espaço. A decisão costuma envolver o ortodontista e levar em conta a fase de desenvolvimento dos dentes.
- Língua presa (anquiloglossia): quando o freio lingual é curto e limita os movimentos da língua a ponto de trazer prejuízo funcional, o que precisa ser avaliado pelos profissionais envolvidos.
A classificação internacional das doenças e condições periodontais, publicada em 2018, cita o freio com inserção alterada entre as características usadas para descrever as condições mucogengivais, aquelas que envolvem a relação entre a gengiva e a mucosa ao redor. Ao mesmo tempo, revisões da literatura mostram que a relação entre freio e retração gengival nem sempre é direta. Por isso, a análise é feita caso a caso.
Freio lingual em bebês e crianças
O freio da língua dos recém-nascidos costuma gerar muitas dúvidas nas famílias. Um consenso de especialistas publicado em 2020 define a língua presa como uma limitação real dos movimentos da língua causada pelo freio, e não apenas pelo aspecto que ele tem. O mesmo documento alerta que, em alguns lugares, há excesso de diagnósticos e de cirurgias desnecessárias.
Esse consenso também afirma que a presença de um freio no lábio superior é normal no bebê e que cortá-lo na fase dos dentes de leite não evita o espaço entre os incisivos. Em crianças pequenas, a conduta costuma ser discutida com o pediatra e com os demais profissionais que acompanham a alimentação e a fala. Na periodontia, a avaliação se concentra principalmente em adolescentes e adultos, olhando a relação do freio com a gengiva e com a higiene.
Como é feita a frenectomia
A frenectomia é um procedimento ambulatorial, feito no consultório, com anestesia local. Em linhas gerais, a profissional libera ou remove a prega de tecido e, quando necessário, dá alguns pontos para orientar a cicatrização. A duração costuma ser curta, mas depende do tamanho do freio e da técnica escolhida.
Antes de qualquer decisão, a consulta inclui conversa sobre a queixa, exame da gengiva e dos dentes da região e, quando faz sentido, avaliação junto a outros profissionais. Se houver gengivite ou acúmulo de tártaro, o mais comum é cuidar primeiro da inflamação. Em São José dos Campos, a Dra. Rafaela, especialista e mestre em Periodontia, avalia cada situação antes de indicar a frenectomia, que faz parte das cirurgias plásticas gengivais realizadas por ela.
Recuperação e cuidados depois da cirurgia
Nos primeiros dias, é comum sentir algum desconforto na região, que em geral é controlado com as orientações e os medicamentos indicados pela profissional. A cicatrização da gengiva e da mucosa costuma ser relativamente rápida, mas cada organismo tem seu ritmo.
- Seguir as orientações de alimentação nos primeiros dias, dando preferência a alimentos macios e em temperatura amena.
- Manter a escovação dos outros dentes normalmente e higienizar a área operada com cuidado, do jeito orientado.
- Evitar puxar o lábio para olhar a região a todo momento, para não atrapalhar a cicatrização.
- Comparecer à consulta de revisão para que a profissional acompanhe a evolução e retire os pontos, se houver.
Quando o freio estava associado a retração gengival, a frenectomia pode fazer parte de um planejamento maior, que às vezes inclui um enxerto gengival. Essa combinação, se necessária, é discutida com antecedência na consulta.
Quando procurar avaliação
Vale marcar uma avaliação se você percebe que o lábio puxa a gengiva ao se mover, se há dificuldade para limpar a região do freio, se a gengiva está recuando perto dele ou se o ortodontista sugeriu analisar o freio. Uma consulta com periodontista ajuda a entender se o freio tem relação com a queixa e se a cirurgia faz sentido no seu caso, ou se outras medidas são suficientes.

Cirurgiã-dentista, especialista e mestre em Periodontia (USP | UNESP). Atende em São José dos Campos.
Referências
- Jepsen S, Caton JG, Albandar JM, et al. Periodontal manifestations of systemic diseases and developmental and acquired conditions: Consensus report of workgroup 3 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. J Clin Periodontol. 2018;45(Suppl 20):S219-S229. doi.org/10.1111/jcpe.12951
- Delli K, Livas C, Sculean A, Katsaros C, Bornstein MM. Facts and myths regarding the maxillary midline frenum and its treatment: a systematic review of the literature. Quintessence Int. 2013;44(2):177-187. doi.org/10.3290/j.qi.a28925
- Messner AH, Walsh J, Rosenfeld RM, et al. Clinical Consensus Statement: Ankyloglossia in Children. Otolaryngol Head Neck Surg. 2020;162(5):597-611. doi.org/10.1177/0194599820915457
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta: o diagnóstico e a indicação de qualquer tratamento dependem de avaliação presencial.
