Limpeza e prevenção
De quanto em quanto tempo fazer limpeza nos dentes?
O intervalo de seis meses é tradicional, mas a frequência ideal da limpeza varia de pessoa para pessoa. Entenda o que dizem os estudos e como esse intervalo é definido.
“Volte daqui a seis meses.” Muita gente cresceu ouvindo essa frase no dentista, e o intervalo de seis meses virou quase uma regra. Mas será que todo mundo precisa da mesma frequência de limpeza?
A resposta mais honesta é: depende. Pesquisas recentes mostram que o intervalo mais adequado varia de pessoa para pessoa, conforme a saúde da gengiva, o histórico de doença periodontal e os hábitos de cada um. Neste texto, explicamos o que os estudos dizem e como esse intervalo é definido na prática.
O que é a limpeza profissional
A limpeza profissional, também chamada de profilaxia, remove a placa bacteriana, o tártaro (que é a placa endurecida) e manchas superficiais dos dentes. Em seguida, os dentes podem ser polidos. Ela é diferente da raspagem periodontal, indicada quando há bolsas periodontais, o espaço que se forma entre o dente e a gengiva quando há perda de suporte.
A consulta de limpeza também é um momento de avaliação. O periodontista observa a gengiva, verifica pontos de sangramento, mede a profundidade do sulco quando necessário e revisa a técnica de higiene. É também uma oportunidade de identificar cedo alterações como retração da gengiva, desgastes no colo dos dentes e áreas onde a escova não está chegando bem. Se quiser entender melhor como o cálculo se forma, veja o artigo sobre tártaro nos dentes.
Seis meses é uma regra?
O intervalo de seis meses é tradicional em muitos países, mas não surgiu de estudos que comprovassem ser o melhor para todas as pessoas. Revisões da Colaboração Cochrane, que reúnem e analisam os melhores estudos disponíveis, investigaram essa questão:
- em adultos sem periodontite grave que já frequentavam o dentista com regularidade, limpezas programadas a cada 6 ou a cada 12 meses mostraram pouca ou nenhuma diferença em gengivite e profundidade de sondagem ao longo de dois a três anos, embora reduzissem um pouco a quantidade de tártaro;
- em adultos que iam regularmente ao dentista, retornos definidos pelo risco individual tiveram resultados semelhantes aos retornos fixos a cada 6 meses em cárie, sangramento da gengiva e qualidade de vida, ao longo de quatro anos.
O estudo britânico INTERVAL, que acompanhou 2.372 adultos por quatro anos, não encontrou diferença relevante no sangramento da gengiva entre retornos a cada 6 meses e retornos definidos conforme o risco. O retorno a cada 24 meses só foi testado em pessoas que o dentista considerou aptas para esse intervalo.
Vale um detalhe importante: esses estudos incluíram adultos que já iam ao dentista com regularidade e não tinham periodontite grave. Eles não se aplicam diretamente a quem está em tratamento ou manutenção periodontal, nem a quem passou anos sem consulta.
Esses resultados não significam que a limpeza não importa. Eles mostram que, para pessoas com gengiva saudável, boa higiene e acompanhamento regular, o intervalo pode ser ajustado ao risco de cada um, em vez de seguir um número fixo igual para todos.
Quem costuma precisar de intervalos menores
Para quem já teve periodontite, a situação é diferente. A diretriz da Federação Europeia de Periodontia recomenda que, depois do tratamento, a pessoa siga em um programa de manutenção, chamado de terapia periodontal de suporte, com consultas a intervalos de 3 a 12 meses, definidos de acordo com o risco individual.
Também costumam se beneficiar de acompanhamento mais próximo:
- pessoas com histórico de periodontite tratada;
- fumantes;
- pessoas com diabetes;
- quem forma tártaro com facilidade;
- quem usa aparelho ortodôntico, tem implantes ou próteses que dificultam a higiene;
- gestantes, já que as mudanças hormonais podem deixar a gengiva mais sensível à placa.
Nesses grupos, o biofilme tende a se acumular com mais facilidade ou a gengiva reage de forma mais intensa a ele. Consultas mais próximas ajudam a manter a inflamação sob controle e a perceber cedo qualquer mudança.
Como o intervalo é definido na prática
Na consulta, o periodontista considera o sangramento da gengiva, a presença de bolsas, a quantidade de placa e de tártaro, o histórico de tratamentos e fatores de saúde geral. Com isso, propõe um intervalo personalizado, que pode mudar com o tempo. Uma pessoa com gengiva estável e boa higiene pode ter retornos mais espaçados, enquanto alguém em manutenção periodontal costuma voltar com mais frequência. Na manutenção periodontal, a consulta costuma incluir a sondagem das áreas tratadas, a remoção de placa e tártaro acima e abaixo da gengiva quando necessário e o reforço das orientações de higiene.
Em São José dos Campos, a Dra. Rafaela define esse intervalo junto com o paciente, explicando o motivo de cada recomendação. O check-up odontológico é o ponto de partida dessa avaliação e ajuda a registrar como a gengiva está ao longo do tempo.
A limpeza profissional complementa, mas não substitui, o cuidado diário. Escovar duas vezes ao dia e limpar entre os dentes são a base da saúde da gengiva entre uma consulta e outra.
Sinais de que vale antecipar a consulta
Mesmo com um intervalo combinado, alguns sinais indicam que é melhor não esperar a data marcada:
- sangramento ao escovar ou ao passar o fio dental;
- gengiva vermelha, inchada ou sensível;
- mau hálito que persiste mesmo com boa higiene;
- sensação de dente mais comprido ou com mobilidade;
- tártaro visível perto da gengiva.
Quando procurar avaliação
Se faz tempo desde a sua última consulta, se você nunca passou por uma avaliação da gengiva ou se percebeu algum dos sinais acima, vale agendar. A limpeza periódica com acompanhamento periodontal permite definir o intervalo adequado para o seu caso, sem depender de uma regra única. Contar na consulta quais medicamentos você usa e se tem condições como diabetes ou gestação ajuda a personalizar a recomendação.

Cirurgiã-dentista, especialista e mestre em Periodontia (USP | UNESP). Atende em São José dos Campos.
Referências
- Lamont T, Worthington HV, Clarkson JE, Beirne PV. Routine scale and polish for periodontal health in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2018;12(12):CD004625. doi.org/10.1002/14651858.CD004625.pub5
- Fee PA, Riley P, Worthington HV, Clarkson JE, Boyers D, Beirne PV. Recall intervals for oral health in primary care patients. Cochrane Database Syst Rev. 2020;10(10):CD004346. doi.org/10.1002/14651858.CD004346.pub5
- Clarkson JE, Pitts NB, Goulao B, Boyers D, Ramsay CR, Floate R, et al. Risk-based, 6-monthly and 24-monthly dental check-ups for adults: the INTERVAL three-arm RCT. Health Technol Assess. 2020;24(60):1-138. doi.org/10.3310/hta24600
- Sanz M, Herrera D, Kebschull M, Chapple I, Jepsen S, Berglundh T, et al. Treatment of stage I-III periodontitis: the EFP S3 level clinical practice guideline. J Clin Periodontol. 2020;47(Suppl 22):4-60. doi.org/10.1111/jcpe.13290
Conteúdo informativo. Não substitui a consulta: o diagnóstico e a indicação de qualquer tratamento dependem de avaliação presencial.
